Gustavo Sn, Advogado

Gustavo Sn

Jaguaré (ES)

Comentários

(2)
Gustavo Sn, Advogado
Gustavo Sn
Comentário · há 11 anos
Um outro costume do Brasileiro que não foi mencionado no texto é o de sempre colocar a culpa de tudo no particular, no cidadão: é um discurso velho e clichê de que o cidadão brasileiro seria o culpado de tudo, porque ele não seria educado, não estudaria, não trabalharia, não obedeceria leis, rouparia, se corromperia, etc. Eu raramente vejo um texto em que a responsabilidade das três esferas do Estado são diretamente citadas como culpadas por problemas. O trânsito é um tema emblemático: todos parecem acreditar e adotar cegamente a noção de que o cidadão brasileiro supostamente seria o culpado do alto grau de acidentes e mortes no trânsito, porque, supostamente, seria o cidadão brasileiro quem não obedeceria as regras, a sinalização e os limites de velocidade. Eu dificilmente vejo uma crítica realista, que faça uma comparação entre a infraestrutura de trânsito de outros países como os da UE. As comparações comumente se limitam ao suposto comportamento pessoal dos cidadãos europeus, japoneses ou norte-americanos, supostamente perfeitos, face ao supostamente imperfeito comportamento do cidadão brasileiro. Mas não é por aí, ao menos não é exclusivamente por aí. Os limites de velocidade que temos nas vias brasileiras são ridiculamente baixos. São feitos para serem desobedecidos, pois são baixos a ponto de serem manifestamente incompatíveis com qualquer critério de eficiência do trânsito. Se você mesmo, que lê este texto, não dirige acima dos limites de velocidade, que jogue a primeira pedra. Sabia que dentro de sua cidade poucos são os trechos que permitem mais de 40 km/h? E que provavelmente em nenhum lugar você poderia ultrapassar os 80 km/h? Será que vc sequer lembra desses limites quando está dirigindo e não vê polícia? Não é só você que ultrapassa esses limites. Mas os limites não são questionados por ninguém. É como se o Estado lavasse as mãos: se der algo errado, a culpa é do cidadão, porque ele certamente estaria além do limite de velocidade. Sempre o cidadão. E o que o Estado faz para fingir estar resolvendo o problema? Ele aumenta as multas, aumenta massivamente o investimento na estrutura de fiscalização e cobrança de multas, com câmeras infravermelhas, radares, sensores portáteis caríssimos: aumenta sua arrecadação. Não investe de fato na raiz do problema: a infraestrutura, o traçado, a qualidade do asfalto das próprias estradas. O Estado, em suas três esferas é omisso, salvo se para aumentar a arrecadação tributária. Mas o cidadão brasileiro, por algum motivo obscuro em seu atavismo intelectual, permanece sempre acreditando que o problema seria exclusivamente ele mesmo, que ele é o único culpado, porque ele passou dos 80 km/h em uma estrada esburacada, cheia de curvas desnecessárias e sinuosas, numa BR qualquer, porque todos os trechos das estradas do Brasil poderiam ser adornados com aquelas placas sinalizadoras cretinas do tipo "Atenção: trecho com alto índice de acidentes". Ah, o que dizer então, por exemplo, dos alemães, que ultrapassam os 160 km/h nas autobahns? Isso é legal lá e os índices de acidentes ou mortes nessas estradas alemãs são baixíssimos. Será que dá pra acreditar que o brasileiro, o cidadão brasileiro, dirige tão mal assim e que o cidadão alemão dirige tão bem? Seria essa a explicação do problema? Será que o executivo, o legislativo e o judiciário brasileiro não têm nada a ver com isso? A maior culpa do cidadão brasileiro é realmente acreditar que ele é o culpado de tudo. O Estado, inclusive seus políticos da esfera executiva, agradecem.
1
0

Perfis que segue

(75)
Carregando

Seguidores

(4)
Carregando

Tópicos de interesse

(49)
Carregando
Novo no Jusbrasil?
Ative gratuitamente seu perfil e junte-se a pessoas que querem entender seus direitos e deveres